domingo, 15 de dezembro de 2013
O TICO-TICO
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O TICO-TICO
Avelina Maria Noronha de Almeida
Uma coisa maravilhosa dos tempos antigos foi a revista O TICO-TICO. Esse nome não deve significar nada para quem é dos últimos tempos, mas para quem foi criança na primeira metade do século XX e até princípios da década de 60 recorda-se dele com saudade. Desde que deixou de ser publicada,nunca mais houve algo no gênero que superasse essa revista, nem mesmo que a alcançasse.
Na época em que eu era criança, os pais compravam na banca do Zé Lírio, no prédio do Hotel Meridional, três tipos de revistas infantis: o Billiken, revista publicada na Argentina, escrita em espanhol,mas esse idioma estrangeiro a gente “tirava de letra”; “Era uma vez...”, do Vovô Felício;e a rainha de todas: O TICO-TICO.
E não eram só as crianças que ficavamdeslumbradas. Também adultos. Dizem que era leitura prazerosa de Rui Barbosa e Coelho Neto e que jovens daquela época como Gilberto Freyre, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade,Ledo Ivo, Lygia Fagundes Telles, Ana Maria Machado e outros eram leitores fascinados com a revista. Inclusive Carlos Drummond, em carta a Álvaro de Moya, disse que, no ano de 1910, o Tico-Tico o ajudou a aprender a ler e a ver figuras. Vejam o que ele escreveu:
"Um passarinho “O Tico-Tico” é o pai e avô de muita gente importante. Se alguns alcançaram importância, mas fizeram bobagens, o Tico-Tico não teve culpa. O Dr. Sabe-Tudo e o Vovô ensinaram sempre a maneira correta de viver, de sentar-se à mesa e de servir à pátria. E, da remota infância, esse passarinho gentil voaaté nós trazendo no bico o melhor do que fomos um dia. Obrigado,amigo!Carlos Drummond de Andrade."
Nas palavras do grande filho de Itabira, podemos avaliar a importância de “O Tico-Tico”, primeira revista infantil do Brasil, lançada no dia 11 de outubro de 1905. Era obra do jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva. Lygia Fagundes Telles, nos 100 anos da criação da revista, disse que “a criança está perdendo a infância,a infância que eu tive lendo o meu Tico-Tico, Almanaque d’O Tico-Tico”.
De acordo com o jornalista Sérgio Augusto, essa revista fezmais pela educação do Brasil do que todos os ministros que disso seencarregaram nos últimos cem anos. Mas o que é esse tão especial O Tico-Tico, que tanto colaborou na formação de várias gerações de crianças, jovens e ainda atingiu adultos? A fabulosa revista teve como modelo a revista francesa La Semaine de Suzette, uma personagem que, no Brasil, tomou o nome de Felismina. Quatro páginas eram coloridas,sendo as demais com impressão monocromática em tom de vermelho, azul ou verde, em vez de preto. Custava 200 réis. Imaginem que esse preço permaneceu até a década de 20 do século passado,porque naquela época não havia inflação no Brasil. Em seis décadas foi fonte de educação e divertimento de várias gerações de brasileiros. Conta-se que um dia pediram a Rui Barbosa para explicar uma informação que dera. E o Águia de Haia respondeu:
“ - Ora, tirei d’O Tico-Tico”.
O conteúdo da revista era de muita variedade. Havia essencialmente uma intenção didática, mas apresentada de um modo muito natural, habilmente inserida nos contos, nas brincadeiras, enfim em todo o conteúdo da revista. A criançada, seduzida pela diversões apresentadas, tinha acesso a uma aprendizagem prazerosa e, por isso mesmo, eficiente.
Eram focalizados vários aspectos da vida social, pois os editores achavam que isso era importante para o desenvolvimento das crianças. A literatura era um dos campos apresentados, com histórias, poesias... Havia informações diversas, jogos, partituras e letras de músicas, textos teatrais e folhas para serem recortadas e armadas, um grande espaço para quadrinhos e seção de correspondência, com consultas, trocas de experiências, como se pode ver, bem no estilo moderno. Também eram muito apreciados os passatempos com enigmas, adivinhações e jogos. Sem se entendiarem, os pequenos leitores assimilavam conhecimentos e preceitos morais.
Rejane M.M.A. Magalhães conta que Rui Barbosa todas as semanas comprava O Tico-Tico para os netos, mas era o primeiro a ler a revista. Certo dia, um seu amigo, o Desembargador Palma, encontrou-o imerso na leitura da revista infantil. Estranhou aquilo e gracejou:
"-Você virou criança?"
E Ruy, com muita seriedade, respondeu:
“- O espírito tem necessidade de distrações amenas, e nada melhor para conservá-lo jovem do que as leituras infantis.”
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Tenho em minhas mãos um exemplar do Tico-Tico (velhinho,coitado!), castigado por mais de 61 anos de vida sofrendo mudanças,porões empoeirados, mas, mesmo assim, ele ainda dá o seu recado. Apenas uma ligeira visão do seu conteúdo descrevendo algumas páginas...
Como era no mês de setembro, a capa ostenta uma cena do “Independência ou Morte!”. A página 3 traz as LIÇÕES DE VOVÔ, como sempre muito sábias, escritas em linguagem bem clara. Fala da tarde de 7 de Setembro e de D. Pedro. Nas páginas 4 e 5, vem a história “A Última Travessura”, uma narração interessante, demonstração de sensibilidade, com um fundo moral e sugestivas ilustrações de Luiz Sá, muito coloridas e divertidas.
A página seguinte: “Curiosidades”, alterna ilustrações e informações curtas, muito bem distribuídas, de forma nem um pouquinho monótona, como uma caricatura do sol bem engraçada, seu rosto apoiado em umas nuvens, e os dizeres:
“O Sol está a cerca de 150 milhões de quilômetros da Terra” (um dado que é o mesmo conhecido hoje); um desenho bonitinho de formiguinhas e abaixo: Proporcionalmente a formiga é um dos animais que maior cérebro possui; e assim por diante. A seção da página 11 é “No Mundo dos Conhecimentos”. O texto circundado de ilustrações e, no exemplar citado o assunto é flores, dizendo, entre outras coisas, que a palavra vem do latim “flos”, dando informações históricas interessantes como: “Os antigos consagravam a seus deuses e a seus heróis diferentes flores, cada uma das quais exprimia um sentimento ou um atributo”. Ou então: “Na antiga Roma houve festas chamadas‘Florálias’, celebradas em 28 de Abril em honra à deusa Flora. Enfeitavam-se todas as casas e mesas, todos se coroavam com flores ecantavam pela rua”.
Na página seguinte inicia-se uma série: GRANDES BATALHAS DA NOSSA HISTÓRIA, com a reprodução marrom ocupando quase toda a página e, ao lado, uma coluna com as informações sobre a batalha marítima no tempo da invasão holandesa, no ano de 1631, quando os invasores receberam um grande reforço: uma poderosa esquadra sob o comando do almirante Janson Pater. Quem estava no comando da esquadra brasileira era o almirante espanhol D. Antônio Oquendo. “As duas esquadras encontraram-se nas costas da Bahia, no dia 15 de setembro e travou-se, então, uma terrível batalha naval, a primeira de grandes proporções que se teria nas costas do Brasil. Foi nessa batalha que Janser Pater, vendo-se perdido, enrolou-se na bandeira de sua pátria e atirou-se ao mar, exclamando:'O oceano é o único túmulo digno de um almirante batavo’”.
Nas páginas 22 e 23, com grandes, engraçadas e bem feitas ilustrações de Oswaldo Storni, um conto adaptado por Maria Adelaide, que vou procurar resumir: A “Cruz do Prefeito”. Havia num povoado um prefeito muito honesto, compenetrado em seus deveres, mas que não sabia escrever e, por isso “assinava de cruz” os atos oficiais, portarias, decretos, recibos, qualquer documento da Prefeitura. Um dia foi nomeado um novo secretário, homem inescrupuloso, que achou ser bem fácil falsificar aquela assinatura e colocar a mão nos cofres públicos, ficando a responsabilidade para o senhor prefeito. Assim o fez. Um dia alguém achou absurdas as despesas autorizadas, levou ao juiz, eos papéis vieram à mão do prefeito para que ele justificasse aquelas ordens. Estranharam que o prefeito se mostrasse tranquilo e apenas separasse de um lado papéis que dizia serem falsos e do outro os verdadeiros.
- Mas como - perguntaram-lhe - pode provar isso?
Respondeu o prefeito:
- São parecidas, porque o falsificador teve muito cuidado em imitar a minha assinatura. Quando eu assino, enfio o papel entre os meus dedos indicador e médio, e traço a linha vertical da cruz junto à extremidade da unha do indicador. Deste modo, os meus traços ficam sempre à mesma distância da extremidade da margem esquerda da folha.
A seguir, mostrou que, nas folhas falsificadas pelo secretário, as linhas verticais das cruzes não coincidiam, pois umas estavam mais para a direita e outras para a esquerda, sendo que, nos papéis legítimos, a distância era uniforme. A autora da adaptação conclui: O secretário, interrogado severamente, confessou tudo. Denunciou os cúmplices, os negócios foram desfeitos, e o prefeito continuou a gozar de todo o prestígio, levando adiante sua ótima administração.
Para se aquilatar o valor dos textos do Tico-Tico, vejam só o seguinte: Nas páginas 24 e 25 está uma seção permanente “Conversas do Tio Juca”. E imaginem quem é o Tio Juca? Nada mais nada menos que o famoso Josué Montello, considerado pela crítica um dos maiores narradores brasileiros, com mais de cem obras publicadas, agraciado com medalhas e condecorações em vários países, tendo romances traduzidos para o inglês, o francês, o castelhano e o sueco e novelas transpostas para o cinema.
Neste exemplar, Tio Juca está no quarto texto sobre o Poder Judiciário. Com linguagem clara, elegante, conversa com os sobrinhos Zequinha, Nhozinho e Teté sobre o Poder Judiciário e o faz relacionando seus ensinamentos com fatos acontecidos com as crianças e comparando os cargos jurídicos com ele próprio e os sobrinhos.
Um exemplo: depois de ter explicado minuciosamente as atribuições de cada membro do judiciário e mostrado atuações, a menina Teté questionou Tio Juca na função de juiz quando proibiu o Zequinha de ir ao cinema por não ter feito os deveres de casa:
“- Tio Juca, me diga uma coisa. Como foi que o senhor deixou que o Nhozinho, no domingo, fosse ao cinema, se ele também não fez os deveres que a professora passou?”
Tio Juca não ficou embaraçado:
“- Foi porque Teté, que era o advogado de Nhozinho, conseguiu provar que ele só não fez os deveres porque esteve de cama, com um pouco de resfriado. Não foi isso, Teté?”
“- Foi isso mesmo, tio Juca.”
Tio Juca tornou a voltar-se para Zequinha:
“- E você, Zequinha, não fez os seus deveres porque foi jogar peteca na rua, não foi isso?”
Zequinha respondeu, baixando a cabeça:
“- Foi sim, senhor.”
“- O castigo não foi merecido?”- perguntou o velho.
“- Foi” - disse Zequinha.
E por aí vai a revista, com a sua “Gavetinha do Saber”, onde em pílulas, joga informações de diversas áreas do conhecimento, algumas com ilustrações, sempre procurando passar uma mensagem positiva como esta: “Miguel Couto foi um dos maiores médicos brasileiros, mestre de várias gerações. Era de origem pobre e se fez pelo estudo e pelo esforço, pelocaráter e força de vontade.”
Ou apresentando fatos interessantes: entre os astecas, os antigos povoadores do México, todo aquele que possuía um pedaço de terra era obrigado a cultivá-lo. Se dentro de 2 anos não a aproveitassem, recebia um aviso e, no fim do terceiro ano perdia o direito de posse do terreno.
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Nos caminhos da revista desfilam Pafúncio, Marocas, Reco-Reco, Bolão, Azeitona, Lamparina, Chiquinho, Jagunço, Lili... personagens de grande empatia, todos muito amados por crianças e adultos, e cujos traços deixaram marcas na história da literatura infantil. Pena que nunca mais ninguém tenha tido coragem, ou interesse, de editar uma revista infantil de tanto valor como entretenimento, instrução, valor moral e cívico.
Tenham certeza de que o Tico-Tico foi poderoso fator na mente de seus leitores.
Disse a jornalista Miriam Leitão, com livros publicados e várias premiações, entre as quais o Ayrton Senna de Jornalismo Econômico, de 2004, o que valida suas palavras:
“Precisamos capturar os estudantes para o prazer da leitura. Prazer que meus pais e professores me ensinaram na infância e ao qual tributo cada um dos meus êxitos. Quem não lê não pensa bem. Quem não é ensinado a pensar jamais vai realizar o seu potencial.”
ONTEM E HOJE
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ONTEM E HOJE
Avelina Maria Noronha de Almeida
“A multidão não envelhece nem adquire sabedoria:
permanece sempre na infância."
Johann Wolfgang von Goethe
Você está diante da tela da Internet e aparece um e-mail dizendo algo assim: "Aqui em Milão, neste momento, está agradabilíssimo. Sol radiante, brisa leve e o perfume das árvores floridas entra pela janela". E aqui, no Brasil, em Conselheiro Lafaiete, se tiver bastante imaginação, você pode visualizar a cena, até sentir o perfume das flores.
Ou você recebe a mensagem de um amigo residente num país asiático na qual ele escreve: “Tenho que parar de escrever porque o edifício está começando a tremer. Vou para um abrigo anti-terremoto”. Você sente o drama da pessoa amiga, sabendo o perigo que ela está passando naquele exato momento e se preocupa e reza e se angustia. Meia hora depois recebe outra mensagem: “Já passou o perigo. Estou bem”. Você se tranquiliza e continua a conversa interrompida. Parece um milagre!
Os da minha idade temos que admitir que, neste caso, “no nosso tempo não era melhor”. Até para conseguir uma ligação telefônica era uma dificuldade: através da telefonista,que demorava horas a conseguir uma ligação para o Rio de Janeiro. Outro dia assisti a um filme ainda do tempo do “preto e branco” e o homem ia dirigindo o carro feito louco para avisar à moça do perigo que corria. Se fosse hoje, era só ligar no celular.
Viajar para Belo Horizonte, na primeira metade do século XX, de ônibus, que fazia só uma viagem por dia, durava cinco horas e, como era estrada de terra, chegava-se ao destino com as roupas e os cabelos empoeirados. Ou então de trem de ferro; eles passavam por aqui duas vezes por dia, também com duração da viagem de umas cinco horas. Mas ainda havia os inconvenientes: havia baldeação em Miguel Burnier. Quantas vezes a gente ficava horas naquela estação porque o outro trem estava atrasado. Quando era no trem da noite, então... ô lugarzinho gelado! Ficava-se tiritando de frio, andando de um lado para o outro para ver se o movimento aquecia um pouco o corpo. E o pior era quando, depois desse sofrimento todo, vinha a informação de que o outro trem não viria e os passageiros seriam reconduzidos a Lafaiete. Sem esquecer também das passagens pelos túneis (creio que eram dois) e, quando se chegava outra vez ao ar livre, o rosto e as roupas estavam cheios de fuligem.
Hoje há ônibus para a capital mineira de meia em meia hora, a viagem dura menos de duas horas e o passageiro pode sair do ônibus prontinho até para uma festa.
Outro ponto a favor dos tempos de hoje: desde meus três anos ia com meus pais ao cinema todos os dias, assim fiquei viciada. Nas segundas-feiras, havia reprise do filme de domingo, então o papai não ia. Eu ficava desorientada. Uma noite, eu tinha meus quatro anos, fomos passear na parte baixa da cidade e, ao voltarmos, passando no jardim da praça Tiradentes, chegando em frente ao cinema comecei a reclamar que a perna estava doendo e eu queria me sentar. Meu pai falou:
“- Vamos sentar aqui no banco do jardim..”
Ao que eu respondi choramingando:
“- Eu quero sentar é lá dentro...”
Como, naquele tempo, eu ia pensar que um dia poderia assistir a muitos filmes por dia dentro da minha casa?
MOVIMENTO CARAV ELAS
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HISTÓRICO DO MOVIMENTO CARAVELAS
Avelina Maria Noronha de Almeida
Tendo idealizado um movimento literário que exaltasse as Letras Mineiras, redigi o MANIFESTO DO MOVIMENTO “CARAVELAS”, que foi apresentado no dia 19 de novembro de 1998, na Reunião da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette, o qual, após ser lido, discutido e aprovado, recebeu as assinaturas dos seguintes membros da Diretoria Executiva e do Conselho Superior, representando os outros acadêmicos:
Alberto Libânio Rodrigues, presidente da Diretoria-Executiva
Antônio Francisco Pereira, presidente do Conselho Superior
Efigênia Chaves Janoni, Secretária do Conselho Supeiror
Carlo Menezes, membro do Conselho Superior
Allex Assis Milagre, secretário da Diretoria Executiva
Wilson Baêta Assis, presidente da UBT (seção de Conselheiro Lafaiete)
Conselheiro Lafaiete, 19 de dezembro de 1998
Desde o ano de 1998 até este ano de 2013, a Academia de Ciências e Letras tem conseguido alcançar muitos dos objetivos do Movimento Literário Caravelas por meio de atividades coroadas de sucesso. Infelizmente, porém, apesar de ter envidado grandes esforços para que a Literatura Mineira passasse a ser uma disciplina do Currículo, não teve realizado esse sonho expresso no Manifesto do Movimento Literário Caravelas.
MANIFESTO DO MOVIMENTO LITERÁRIO “CARAVELAS”
Um projeto da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette (ACLCL) pela valorização do talento mineiro nas Letras
Numa homenagem às nossas raízes linguísticas, iniciemos com Camões:
“Todo mundo é composto de mudanças,
Tomando sempre novas qualidades.”
Algumas embarcações antigas, quando estavam em alto mar, usavam duas navegações: a primeira, velas ao vento, se estes eram favoráveis ao rumo almejado. Porém, às vezes, a calmaria paralisava as embarcações e era preciso mudar para a segunda navegação, não mais ao sabor das forças naturais, mas ao comando de uma nova força, planejada e consciente, que pegava em remos e passava a conduzir as naus.
Vivemos, em Minas Gerais, um quadro semelhante de desafio. Em alguns lugares, ocorrem verdadeiros renascimentos literários. Verifica-se, entretanto, que são ventos esparsos e inconstantes, embora muitas vezes fortes, que os impulsionam, mas insuficientes para se alcançar a plenitude do desenvolvimento desejado.
Isso acontece, também, no setor educacional. Há livros didáticos excelentes; no estudo da literatura do século XX, todavia, cristalizam-se, entra ano, sai ano, em nomes justamente consagrados, é bem verdade, mas existem lacunas imperdoáveis. Entre os escritores mineiros dos últimos tempos encontramos geralmente, nos livros de estudo, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Murilo Mendes e poucos mais. Onde estão Murilo Rubião, Fernando Sabino, Emílio Moura, Vivaldi Moreira, Djalma Andrade, Adélia Prado, Roberto Drummond e tantos outros de valor incontestável? Além disso, na maioria das vezes, o contato dos estudantes com importantes obras é feito apenas através de textos escolhidos e resumos que, se dão uma visão necessária de conjunto em relação ao panorama literário, não devem ser usados tão amplamente, pois tal comportamento priva o leitor do prazer imensurável que se usufrui no contato mais íntimo com a alma dos
livros. Outra falha a se observar é o quase geral desconhecimento a respeito das principais entidades literárias mineiras e do trabalho que desenvolvem.
Assim, chegamos à conclusão de que se faz mister tomar os remos, usar a segunda navegação neste momento de riqueza literária mas também de inquietude, contradições e rumos pouco definidos para, mais adiante dessas ilhas esparsas, alcançarmos as costas de inteiro e profícuo continente.
Quando os ventos forem favoráveis, deixaremos inflar as velas. Se necessário, como naquelas embarcações antigas, os remos cortarão as águas. É o que pede a hora presente.
Não se trata de um movimento de ruptura com os padrões atuais. Nosso intuito é a convivência harmoniosa de estéticas diversas. Almejamos um ecletismo saudável, um respeito à identidade de cada um ou de cada grupo. Queremos preservar o que está bem, acrescentando-lhe novas idéias, novas atitudes, novos comportamentos. Será nossa modesta contribuição ao somatório de idéias e ações que arquitetam a marcha da civilização através dos tempos. Não se trata de arroubo momentâneo. É reflexão amadurecida. E quais são nossos principais objetivos?
Em primeiro lugar, ampliar o conhecimento da galáxia de Gutenberg, dando ênfase à intimidade com a literatura de nossa região, com a alma mineira tão ampla em suas manifestações e que em si condensa, com brilho, a alma do mundo inteiro. Para tanto, conclamamos as entidades literárias, os órgãos educacionais, as autoridades e os parlamentares de Minas Gerais para que possamos desenvolver estratégias e ações comuns como: analisar criticamente os currículos escolares e os livros didáticos no que diz respeito ao ensino da Literatura, dando sugestões em relação aos currículos dessa disciplina; solicitar dos órgãos próprios a criação da disciplina LITERATURA MINEIRA, ao menos em uma das séries do Ensino Médio; incentivar o estudo mais amplo de textos de autores mineiros e de obras importantes da Literatura Universal; desenvolver maior intercâmbio entre as principais entidades literárias do Estado e delas com as escolas; contatar os autores e editores de livros didáticos de Literatura, procurando sensibilizá-los para os objetivos do Movimento; buscar o apoio das Prefeituras Municipais; reconhecer e fazer emergir novos e autênticos valores literários que estejam no anonimato; acompanhar a marcha do Movimento e promover encontros para planejamentos e avaliações periódicas dos resultados obtidos.
O “MOVIMENTO CARAVELAS” é um sonho, por enquanto. Mas o sonho é um imperativo humano e, como disse Tiradentes, “Sonhos precisam ser realidade”. Com este Manifesto damos hoje o primeiro passo para que isso aconteça, confiando no sucesso. “ALEA JACTA EST!”
Avelina Maria Noronha de Almeida, idealizadora do MOVIMENTO LITERÁRIO “CARAVELAS”, membro fundador da ACLCL
AH! OS TEMPOS ANTIGOS...
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AH! OS TEMPOS ANTIGOS...
Avelina Maria Noronha de Almeida
"Tudo o que é bom dura o tempo necessário para se
tornar inesquecível."
Alexandre Magno Abrão Nascimento, Chorão.
Atualmente não, mas até umas décadas atrás era muito comum ouvir-se: “No meu tempo é que era bom!” Nem sempre essa frase é verdadeira. Muitas coisas melhoraram desde minha infância e adolescência.
Por exemplo: ão era fácil tomar banho gelado de chuveiro de manhãzinha - porque mesmo se houvesse uma serpentina (creio que as pessoas mais novas talvez não saibam o que é e pensem em Carnaval; serpentina era um cano que passava dentro do fogão de lenha e que aquecia a água que era levada à caixa do banheiro)ligada ao fogão a lenha, não dava tempo de esquentar a água da caixa do banheiro, bem cedinho, antes de sair para a escola ou para o serviço. Hoje, em menos de um minuto, cai a água cálida e gostosa.
Não era fácil coar o café para tomar antes de sair. Então se a lenha estivesse “verde”, escorrendo aquela resina - e quantas vezes isso acontecia!-, parecia até o lobo da história dos Três Porquinhos: a gente soprava, soprava, soprava... até que o fogo acendesse direito. Hoje,em menos de um minuto, no fogão a gás a chama aparece.
Se estava passando uma camisa - meu pai usava camisa branca e a gola e o punho tinham que ser engomados - já estava quase pronto o serviço,o ferro de brasa, que não era muito leve, dava um estalinho, soltava umas fagulhas que caíam em forma de cinza e sujavam a camisa. Mais trabalho: de limpar e de passar de novo. Não era só isso. Era
muito mais...
Só quem viveu aquele tempo pode entender. Há coisas do passado que se perderam, sumiram do cotidiano.
Gosto de comentar coisas da minha infância que foram substituídas com o decorrer dos tempos. Uma delas é o “chinelo de ligas”. De todas as pessoas a quem já indaguei se o conheceram, mesmo gente não muito nova, só uma, além de ter conhecido, trabalhara na fábrica em que eram confeccionadas.Creio que na rua Dias de Souza. Quando tento explicar como eram esses chinelos, não fico convencida de que as pessoas consigam visualizá-los na imaginação. Gostaria de ter ao menos uma fotografia em branco e preto, porque naquela época também não havia fotografia colorida em nossa terra. Mesmo no Brasil, só algum tempo depois alguns privilegiados conseguiram acesso a esse progresso,
demorando mais a se tornar utilizada por quem quisesse.
Ao escrever sobre aqueles chinelos, me deu uma curiosidade. Seria invenção de gente nossa? Haveria deles em outros lugares? Procurei na Internet e só achava as palavras “chinelo” e “liga” separadas: chinelos bordados, chinelos de couro; achei Liga de Esporte, Liga da Justiça, Liga das Escolas de Samba, até Liga de Urubus... Imagens que achei como "chinelos de liga" não correspondem aos antigos que estou citando.
Quando já estava desistindo, achando que a invenção era de Queluz, achei um site: Companhia de Luz Cachoeirense (Cachoeira do Campo fica a menos de 20 km do centro de Ouro Preto). Não era só nas terras queluzianas e lafaietenses que aqueles chinelos pisavam o chão. E foi bom porque achei a descrição que eu iria quebrar a cabeça para fazer.
Olhem só um trecho das informações: Em 1928, constituiu-se então uma sociedade anônima, a Companhia Força e Luz Cachoeirense. "A energia elétrica possibilitou a instalação de uma fábrica de artefatos de couro, tendo como produto principal o chinelo de 'liga' ou 'tapete', como era chamado. Era todo fechado como sapato, podendo ser usado à guisa de chinelo, pisando-se seu calcanhar. Sua maleabilidade se devia ao fato de ser feito de linhas de algodão tecidas e tingidas(cores azul, vermelho, verde) na própria indústria."
Quando eu era pequenina tinha pavor desses chinelos de liga. O contato do tecido de ligas com o meu pé me dava “nervoso”, eu até arrepiava, porém minha mãe insistia que eu os usasse porque não eram perigosos, não davam tombo. Ela tinha sua razão. Eu gostava mesmo era do meu tamanquinho, batendo “toc, toc” no assoalho, mas que já me havia dado
bons tombos.
Não só as crianças, mas também adultos, pelo menos no meu círculo de conhecimentos, usavam muito era o tamanco. Principalmente para lavar o chão e outras atividades domésticas. Mas não eram sofisticados, como nos tempos de hoje. Eram do tipo tamanco português. Muito sólidos, esses tamancos eram feitos na pequena fábrica que o excelente musicista, compositor de obras sacras belíssimas, Cândido Lana, tinha na rua Afonso Pena, à direita de quem sobe, já chegando perto da Prefeitura.
Lembranças...
domingo, 8 de dezembro de 2013
O DIA EM QUE VI UM DISCO VOADOR
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O DIA EM QUE VI UM DISCO VOADOR
Avelina Maria Noronha de Almeida
There are more things in heaven ad earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.
(Existem muitas coisas entre o céu e a terra, Horácio,
Que supõe tua vã filosofia.)
Os versos acima estão no Capítulo I, cena V, de “A Trágica História de HAMLET, Príncipe da Dinamarca”, obra escrita por William Shakespeare, célebre dramaturgo e poeta inglês que viveu de 1564 a 1616. Essas palavras foram ditas a seu amigo Horácio, como resposta às palavras que ele dissera, espantado com o espectro do rei morto: Ó dia e noite! É estranho!
Achei oportuna a citação do atormentado príncipe quando o assunto é OVNI, talvez o mais espantoso fenômeno de nossos tempos – objeto de curiosidade, às vezes de riso e incredulidade e mesmo, em certos casos, de medo.
Parece-me que o acontecimento mais recente no Brasil deu-se no último dia 19, quando, num canavial, na região de Votuporanga, a 519 km de São Paulo, a plantação foi amassada em um formato circular de cerca de 60 metros de diâmetro.Outras duas área circulares menores também foram amassadas a cerca de 15 metros da primeira área.
Noticiam os jornais que o Ministério de Defesa britânico decidiu abrir ao público, gradualmente, os seus “arquivos X”, relatórios confidenciais sobre aparições de objetos voadores não identificados (OVNIS). Segundo o jornalista Mark Towsend, no jornal inglês The Observer, são 7 mil relatórios de investigações nos últimos 30 anos, distribuídos em 160 arquivos. O que é real, o que não é... se é fantasia, confusão mental, imaginação exacerbada ou fato verdadeiro... se são manifestações extraterrestres ou atos de espionagem de algum país... só o tempo (talvez!) poderá esclarecer.
Não é que eu, também, resolvi abrir o meu humilde arquivo de um relatório só e contar a minha história? Sei que me arrisco a certos julgamentos assim como: “vive no mundo da lua” (neste caso, seria “da estrela”?...), “está fora de órbita”, “inventando para impressionar”. E assim por diante...
Aconteceu assim: era o dia 7 de fevereiro de 1982. Eu tinha ido à casa de minha amiga Luci, na rua Narciso Júnior, bairro Campo Alegre. Eu e minha filha Cláudia, ainda bem pequena, voltamos para casa passando pelo bairro de Santa Efigênia.
Era uma linda noite de verão. Domingo. Dezenove horas e quarenta minutos. As ruas estavam vazias. Nem viva alma! É que os trapalhões estavam no auge do sucesso. Quem não tinha ido à missa das sete da noite na Matriz de Nossa Senhora da Conceição (naquela época a missa não era às dezenove e trinta) estava com os olhos grudados na televisão rindo com as impagáveis trapalhadas do Didi, do Dedé, do Mussum e do Zacarias.
Já na rua Barão de Suassuí, ao passar em frente à rua Santa Cecília, vi um cachorro que me pareceu ameaçador e resolvi atravessar para o lado direito da rua. Por um acaso olhei para o céu e vi, em frente ao Colégio Estadual, uma estrela grande lindíssima piscando, muito branca, mas com raios alternadamente vermelhos, alaranjados e azuis. Era um espetáculo deslumbrante! Meus olhos ficaram tão presos ao astro que atravessei a rua como um autômato. Por sorte não passou nenhum carro!
Chegando ao passeio, tive o cuidado de verificar o número da casa em frente à qual estava passando: 595. Fixei de novo o olhar no fenômeno. Pelo fio elétrico eu comprovava que o objeto brilhante não saía do lugar. Não poderia, assim, ser um avião.
Já estava no número 366 quando resolvi atravessar a rua. Foi quando olhei para trás, por menos de um minuto. Quando voltei a olhar, o ponto luminoso já havia começado a mover-se. Quando cheguei em frente à descida da rua Dr. Zebral, eu o vi desaparecendo nas matas do horizonte. Ficou imóvel durante o meu trajeto de 229 metros e, no espaço andado de 80 metros mais ou menos, partiu do meio do céu e desapareceu atrás das árvores, lá ao longe.
Ao chegar na rua Coronel Nascimento, encontrei com pessoas que vinham da missa. Não acreditaram na minha história. Um primo que também vinha disse:
- Ali é rota de avião. Foi um avião que você viu.
Eu só respondi:
- Se amanhã os jornais noticiarem um disco voador, é o meu!
E não é que no dia seguinte os jornais e as emissoras de televisão noticiaram que um objeto não identificado, de grande brilho e beleza, na madrugada daquele dia, 8 de fevereiro, perseguiu o Boeing 727/200 da VASP por mais de uma hora, num vôo de Fortaleza para São Paulo? Cerca de 150 pessoas que estavam no avião acompanharam a luz. Foi assunto vibrante nos meios de comunicação por mais de uma semana. Até hoje o fato não foi explicado. E eu havia presenciado o OVNI umas sete horas antes, justamente numa rota de avião...
Só me resta parafrasear o velho timbira do I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias:
- Leitores, eu vi!
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
FOLCLORE DA QUARESMA E DA SEMANA SANTA
FOLCLORE SOBRE QUARESMA E SEMANA SANTA NA ANTIGA QUELUZ
Avelina Maria Noronha de Almeida
Sexta-Feira da Paixão. Eu era menina bem pequena. Peguei a vassourinha que me deram e fui varrer o jardim. Pra quê!...
- Menina, pára de varrer!!! – era a voz aflita da moça que tomava conta de mim.
E explicou muito brava:
- Você está varrendo Nosso Senhor Jesus Cristo!
Larguei a vassoura, peguei um martelinho e fui quebrar os coquinhos que meu bisavô me trouxera. Novo desespero da moça:
- Larga isso! Você está martelando Nosso Senhor...
Até porque fui pentear cabelo ela implicou. Desisti. Sentei-me no degrau da varanda e fiquei imóvel, com medo até de me mexer e magoar o nosso Salvador.
Era assim em tempos passados. Quem vendesse alguma coisa na Sexta-Feira da Paixão, estava vendendo Nosso Senhor Jesus Cristo; se moesse milho, em vez de sair fubá podia sair sangue. Não se devia dar roupas, porque podiam fazer feitiço com elas. O leite deveria ser distribuído gratuitamente, senão a vaca deixaria de produzi-lo.
Eram várias, também, as superstições relacionadas com a Quaresma: quem dançasse, cantasse música de carnaval, fizesse festa corria o risco de ver ou virar mula-sem-cabeça ou lobisomem. Casar na Quaresma, nem pensar!
Simpatias, muitas, como, para curar coqueluche: Na Sexta-Feira da Paixão enterrar 3 pedrinhas de sal, ou pedir 3 pratinhas pelo amor de Deus e enterrá-las como se fosse a tosse. Para quebradura, naquela mesma data, colocar o pé da pessoa numa gameleira, tirar a marca na casca, cortá-la e pendurar na fumaça para secar; medir um prego na hérnia e depois enterrar até a marca no pé da gameleira.
Também na noite da morte de Cristo: cortar as unhas das mãos e dos pés cruzando (primeiro uma unha da mão direita, depois uma da mão esquerda e, assim, ir alternando) não deixava dar dor de dente; cortar o cabelo em cruz e enterrar na bananeira fazia o cabelo crescer muito; cortar um pedacinho da orelha dos animais domésticos fazia com que eles nunca se zangassem; a pessoa que fosse gorda devia vender quantos quilos quisesse emagrecer para quem quisesse engordar e depois passar o dinheiro para o primeiro pobre que encontrasse na rua; dar três piques no tronco de qualquer árvore frutífera faria com que ela produzisse em abundância; comer o ovo que tivesse sido botado naquele dia daria proteção...
Mas, por favor!!! Entendam bem. Eu não estou aqui ensinando simpatias... e sim passando o resultado de pesquisas folclóricas.
Francisco de Paula Rezende, que foi juiz de direito em Queluz nos meados do século XIX, conta, em seu livro “Minhas Recordações”, que, em nossa terra, encontrou alguns costumes interessantes relacionados com a Quaresma e as festas de Semana Santa. Um deles era a Serração da Velha, que ele assim descreve, embora ressaltando que nem sempre a memória ajudasse. Ele diz o seguinte sobre essa folia:
“.De três coisas, entretanto, me recordo: a velha é a quaresma que eles tratam de serrar; pois que esse brinquedo tem lugar justamente no meio exato da quaresma; segundo que a velha faz um testamento exatamente como o de Judas em que se trata de satirizar os costumes ou antes algumas pessoas; e terceiro finalmente que este brinquedo terminava por uma paródia mais ou menos perfeita de um enterro ou antes de um ofício solene de defunto, pois que, reunidos todos defronte da minha casa, no largo da Matriz, com estandartes, luzes, e muitos deles vestidos de padres, aí se conservavam um tempo imenso a cantarem lições e a praticarem algumas outras solenidades que são próprias daqueles ofícios.”
O relato que ele faz é muito sucinto, mas naturalmente o ritual devia ser como o que geralmente se usava na região. A Serração da Velha consistia em ritos festivos oriundos das folias portuguesas e que aconteciam na quarta-feira da terceira semana da Quaresma no Brasil, no séculos XVIII, e desapareceram mais ou menos nos anos 70 do século XIX. Era uma crítica ferina à figura das avós pela forma violenta que comumente usavam naquela época nos métodos de disciplinar as netas. No Rio de Janeiro, de acordo com as crônicas coloniais, as mulheres idosas ficavam quietinhas, escondidas em suas alcovas, não saindo às ruas enquanto não passavam os préstitos. Creio que aqui não se chegava e esses extremos. Algumas fontes citam os seguintes rituais:
Em cima de um estrado há uma pipote onde dizem estar encerrada uma velha condenada ao suplício do serrote. Um homem com um serrote finge estar serrando o pipote. Enquanto isso, o povo canta:
Serra a velha, / Força no serrote. / Serra a velha / Dentro do pipote..
Esta velha tem malícia, / Esta velha vai morrer. / Venha ver serrar a velha, / Minha gente, venha ver.
Serra, serra, serra a velha, / Puxa a serra, serrador, / Que esta velha deu na neta / Por lhe ouvir falar de amor.
Aí o serrador cantava com voz de falsete:
Que castigo ela merece? / Dizei-me senhores meus.
E a turba alvorotada repetia o canto inicial:
Serra a velha,/ Força no serrote./ Serra velha / Dentro do pipote.
Alguns autores acreditam que essa folia ainda é celebrada de forma cristianizada na “queima do Judas” e no “testamento do Judas”.
Padre José Duarte de Souza, num livro inédito em que apresenta subsídios de pesquisas feitas em diversas fontes com vista a uma futura história de nossa cidade (sonho que ele, infelizmente, não teve tempo de realizar), focalizando as diversões populares em Queluz, no caso a “serração da velha”, diz que algumas mulheres “revoltadas e indignadas, xingavam e, às vezes, recorriam ao Juiz de Direito para proibir tal diversão. Durante o percurso pelas ruas ao clarão de tochas e lanternas, o povo cantava estes versos:
Olha a velha de lá, / Abra a boca de cá, / Põe a mão na espada, / Vamos guerrear.
Quando ver (sic) a velha / Com cara de que chorou / A cachaça na venda / Já se acabou.
Quando ver ( sic) a velha / Na porta sorrindo, A cachaça na venda, / Já está se medindo.
Ao chegar ao Largo da Matriz, hoje praça Barão de Queluz, lia-se o testamento da velha, cujo alvo era satirizar os costumes e pessoas do lugar. Terminava por uma paródia mais ou menos perfeita de um enterro com estandarte, música e alguns vestidos de padre para a celebração solene das exéquias”.
Outro brinquedo utilizado na Quaresma chamava-se “Luiz ou Liz Teixeira”. Ia um homem carregado em uma padiola ou em um espécie de andor, acompanhado pelo povo em algazarra, o qual ia serrando uma grande cabaça, fazendo trejeitos e momices, despertando gritos de alegria dos acompanhantes que ia cantando pelas ruas e praças versos sobre a cachaça.
A cachaça boa / É de garrafão, / Bebe o afilhado, / Bebe o patrão.
A cachaça boa / É da garrafinha, Bebe a afilhada, / Bebe a madrinha.
A cachaça é boa, / Eu daqui não saio. / Aqui mesmo eu bebo, / Aqui mesmo eu caio.
O homem, que eles chamavam de Luiz Teixeira, em cada parada fazia um discurso sobre a cachaça.
No século XX, além da queimação do Judas – um boneco vestido de pano pendurado, que era malhado, estripado e queimado no Sábado de Aleluia, em Queluz, depois Conselheiro Lafaiete, o folclore quase se resumiu nos testamentos de Judas, muito engraçados! Às vezes, na primeira metade do século, eram excessivamente maldosos, despertando indignação em pessoas satirizadas. Mas nem sempre isso acontecia, muitos até gostavam de serem lembrados quando as brincadeiras eram leves. De todo jeito, os textos eram feitos com muita graça.
Encontra-se, no Correio da Semana de 6 de abril de 1940, sob o título ALELUIA! ALELUIA!!!, o seguinte:
“Encerrando a Semana Santa, é de praxe marcarem o Sábado de Aleluia com o trucidamento de Judas. A nossa cidade, embora todo o seu adiantamento, não fugiu ao velho hábito. Felizmente, ele modernizou-se. Já não fazem a Quinta do Judas, para a qual, na madrugada do Sábado de Aleluia, os gaiatos carrregavam tudo que encontravam à mão, inclusive veículos, animais, utensílios domésticos, até plantações completas.”
Mas se a brincadeira acabou, deixou de ser feita, nem por isso passou a expressão que muitas vezes se ouve falar (eu mesmo costumo usar a expressão) “Vou levar pra a horta do Judas”. Pelo jornal, comprova-se a sua existência em nossa cidade. Continua o jornal, esse excelente testemunho da História:
“Ao romper das Aleluias, lido o Testamento, Judas, com seus trinta dinheiros nefandos, era entregue à sanha da meninada. Hoje, em nossa cidade, Judas é ‘passeado’ pelas ruas da cidade, lido o seu testamento de ponto em ponto, e ‘estourado’ finalmente. Este ano assim se deu. A dupla “Angorás” fez o seu Judas e o competente testamento, que foi impresso e fartamente distribuído na cidade, do qual vão abaixo os legados mais interessantes. O Judas da Chapada também teve seu testamento que sai abaixo, a insistentes pedidos de moradores daquele populoso e florescente bairro.”
Alguns trechos do Testamento da Chapada:
Sou o Judas da Chapada, / Morro da Mina e Água Preta, / Sou irmão de todos vós / E também do Capeta.
Para o grande Zé Duarte / Amolar suas navalhas, / Deixo uma lima velha / E um fardo de toalhas (Zé Duarte era um barbeiro antigo da Chapada).
Uma viola, uma sanfona / E também um violão, / Deixo pra ser empenhado / No botequim do alemão.
Ao amigo Zé Álvaro, / Que é um moço granfino, / Deixo-lhe a ciência, / De afinar seu violino.
Depois de brincar bastante, concluía:
Finalmente, dou nó à corda, / No momento da tortura, / E lego a minha egüinha / Ao violeiro Ventura.
Agora uns trechos do “Testamento de Judas Iscariotes” (organizado pela dupla Angorá) em 1940 e distribuído ao povo:
Antes de ir pro outro mundo / Quero no micro falar; / Por isso peço ao Seu Louro / A Rádio Clube ligar.
Ao conhecido Braz / Eu deixarei coisas mil. / Poderá fazer escolha / Para o seu
Salão Brasil.
O meu belo frontispício / Dará um lindo ladrilho, / Por isso já fiz oferta / Ao Joaquim de Souza Filho..
Dimas, o fogueteiro, / Que me fez de bomba e capim, / Virá com sua morena / Pôr-me fogo no estopim.
A corda já me aperta! / Minha boca está espumosa! / Dai-me água, Dr. Mário, /
Lá da Fonte Luminosa!...
Senhores!... adeus!... / Só para o ano... / O nó já me aperta, / Já não sou um ser humano!...
Duas curiosidades: a primeira é que, antigamente, as pessoas que vinham da roça e não tinham casa na cidade, ao passar num córrego que havia logo após a descida íngreme da Rua Francisco Lobo, ali lavavam os pés, por isso o local passou a ser chamado de Lava-Pés; a segunda: para cada procissão, as senhoras e moças faziam um vestido novo. Minha mãe, nessa época, era costureira e passava mal para dar conta.
Hoje as superstições esmaeceram na distância do tempo (embora aqui e ali ainda haja resquícios), porém, em seu lugar, encontramos outras atitudes que, graças a Deus, não estão em todas as pessoas: a descrença, a indiferença, o desrespeito.
Não podemos negar que havia um encanto especial nos tempos de outrora!
MINHA BISAVÓ CHIQUINHA
MINHA BISAVÓ CHIQUINHA E SUA ASCENDÊNCIA PURI
Avelina Maria Noronha de Almeida
Minha trisavó era índia puri, como dizem, “pega a laço”.
Minha bisavó Francisca era filha dela com um fazendeiro da região. Chiquinha, com a chamavam, Casou-se com João, um carpinteiro, de família descendente de portugueses. Tiveram dois filhos e cinco filhas, uma delas a minha bisavó Avelina. Ela e a irmã Zulmira apresentavam a tez mais clara. Tio Elir, tia Ascendina, tia Maria e tia Joana tinham, como os puris, tez cor de cobre. Quase todos os seus rebentos tinham cabelos lisos e grossos, negros, luzidios e bastos, iguais aos da mãe Francisca.
Uma prima idosa contou-me que, quando pequenina, estava sentada num degrau da cozinha, junto com minha bisavó Francisca. Esta penteava os cabelos, que iam até as cadeiras. Já estava nesse afazer havia bastante tempo, mas ainda não conseguira deixar os cabelos como o desejado. Foi quando se impacientou e disse irritada:
- Também estes cabelos de puri!.
Outras características que são citadas como daqueles indígenas aparecem em vários descendentes de minha bisavó Chiquinha: pescoço curto, ventre exuberante nas mulheres, pernas finas, pés estreitos atrás e largos na frente. Também já li que havia um tipo de reumatismo entre os puris e, nos descendentes da minha antepassada, é muito freqüente esse problema. Outro detalhe é a tez lisa dos puris e tenho tias-avós com 90 e 92 anos com a pele do rosto praticamente lisa.
Chiquinha era raizeira: ia sempre nos matos para procurar plantas curativas e também chamada para rezar certas orações para a mulher que estava para ter criança. Quando chamavam a parteira, já chamavam também minha bisavó para benzer.
Uma coisa curiosa. Tinha dentro de casa um tatu, como se fosse um cachorrinho. Seria uma saudade atávica da mata?
Chiquinha trabalhava muito. Era a melhor quitandeira da cidade. No fundo da casa havia um terreno imenso, cheio de coqueiros. Ela punha os coquinhos a secar enterrados no chão, onde batesse bastante sol; plantava amendoim; moía os coquinhos e o amendoim para fazer doces. Também os fazia com as frutas do pomar. Certo dia, uma vizinha estranhou que Chiquinha estivesse fazendo arroz para a janta e perguntou-lhe por que não fazia no almoço quantidade que desse para de tarde. Ela retrucou:
- Pra que? O melhor do arroz é fazer...
Uma tarde estava na janela e uma pessoa, sabendo-a sempre atarefada, perguntou:
- Chiquinha, o que você está fazendo na janela?
Respondeu:
- Estou olhando as pessoas passarem e ver quem eu vou chamar para tomar café comigo hoje.
Pessoa muito acolhedora, a casa dela ficava sempre de porta aberta e cheia das pessoas que moravam na Chapada, nome da rua em que residia. Trançavam o dia inteiro por lá e ela dava atenção a todos. Mas às vezes cansava. Tivera um câncer no peito, o que devia ter enfraquecido um pouco o seu corpo. O que fazia? Ia para o fundo do seu terreno, num lugar em que o mato era bem alto, e lá, no meio dele, cavava uma cama no chão, ali se deitava e ficava quietinha. Não a encontrando em casa, vinham procurá-la no pomar. Passavam pertinho dos tufos de mato. Gritavam:
“- Chiquinha! Chiquinha...”
E ela lá, bem quieta, deixava que fossem embora. Interessante que Debret, nos livros em que conta suas viagens pelo Brasil, diz que os índios puris cavavam a terra e faziam suas camas. Um outro arqueólogo, não me lembro qual no momento, dizia ter encontrado o esqueleto de um puri numa posição que sugeria ser confortável, num cavidade redonda, como uma bacia, feita na terra. Será que Chiquinha soube a respeito da cama dos antepassados por relato da mãe índia e fazia o mesmo? Ou terá visto a mãe fazê-lo? Será que era intuitivo, um comportamento atávico?
Na sua cozinha, muito grande porque tinha num dos lados a mesa de carpinteiro do marido, havia um grande fogão de lenha. As paredes da casa toda eram de pau a pique revestidas de uma camada de barro. O chão era de terra. Já a casa do filho de meus bisavós, encostada à deles, era um bangalô muito bonitinho. Parece-me que vovó é que gostava daquele ambiente primitivo, não queria mudá-lo.
No meio da cozinha havia um afundamento redondo e ali acendiam uma fogueira. A casa também não tinha eletricidade, embora a rua em que moravam fosse próxima ao centro da cidade e todos os vizinhos tinham a luz elétrica. À noite a família ia para lá. Todos sentados em volta da fogueira no meio da cozinha. Contavam casos dos amigos, de assombração... Pena que não conheci a fabulosa Chiquinha, pois quando, menina ainda, passei a freqüentar aquela casa, só estava vivo o meu bisavô. O que eu sei dela foi contado por minha mãe e minhas tias.
Chiquinha morreu às vésperas do Natal. Era noite. As filhas casadas moravam em outras cidades e tinham vindo para a ceia. A casa estava lotada. Cansada, pois fizera muito pão, muitas quitanda, doce, cozinhara as carnes e guardara tudo em baús para serem usados na ceia de Natal, fora para o quarto repousar.
Ao deitar-se, sentiu-se mal. Chamou o marido e os filhos e fez seu último pedido:
- Quero que façam a ceia como todos os anos.
Pediu o crucifixo e disse “Meu Deus!” e morreu.
Cumpriram a sua vontade. No dia 24 a ceia foi feita. Todos em volta da mesa, chorando, comendo tanta coisa gostosa que Chiquinha fizera para eles.
A vida inteira minha bisavó lutara com a epilepsia de seu filho Eurico, catando plantas pelo mato, fazendo benzeções, rezando orações que o vigário lhe ensinara. Na hora do enterro, todos preocupados com o Eurico. Como ele iria se arrumar sem a mãe para tomar conta dele. Realmente, ele teve um ataque, caindo em cima da terra que jogaram sobre o caixão. Foi o último. Nunca mais teve nenhum problema. Ficou curado da epilepsia. Foi para Belo Horizonte, arrumou emprego. Tocava violino muito bem e mostrava o seu talento na igreja de São Geraldo, onde era muito estimado. Morreu já idoso.
Era assim minha bisavó Chiquinha, que passou para nós, de sua família, a herança recebida de sua mãe índia puri: características físicas, tendências e nem sabemos o quanto mais nós temos daqueles gentios em nossa personalidade e em nossos comportamentos.
Nós, descendentes dela, que era filha de uma “índia pega a laço”, temos um enorme carinho pela sua figura quase lendária, um marco da presença do sangue dos primeiros habitantes de nosso País em nossas veias.
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