segunda-feira, 25 de novembro de 2013
GRIPE ESPANHOLA
GRIPE ESPANHOLA
Avelina Maria Noronha de Almeida
O escritor mineiro AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA, um dos luminares da Literatura Brasileira de nossos dias, abordou, em uma de suas crônicas semanais no Estado de Minas, a “gripe espanhola”, que grassou no mundo em 1918, com a duração de três anos.
Na referida crônica é relatado um fato que muito me impressionou. Na tentativa de descobrir uma vacina contra a gripe, alguns médicos resolveram realizar experiências em seres humanos, com prisioneiros da ilha de Deer, propondo a eles a absolvição de seus crimes, por piores que fossem, caso se submetessem aos testes. Os 62 presos selecionados, entre trezentos e tantos voluntários, FORAM SUBMETIDOS A COMPORTAMENTOS TÃO TERRÍVEIS que eu não tenho coragem de transcrevê-los (quem quiser conhecer detalhes sobre o assunto, é só ler a crônica do escritor do dia 19/03/06, no Estado de Minas). O ESPANTOSO É QUE NENHUM DOS PRESOS CONTRAIU A GRIPE, mas o médico da enfermaria contraiu-a e morreu em conseqüência...
Diz Affonso de Sant’Anna que a “espanhola” infectou 600 milhões de pessoas e matou entre 20 milhões e 50 milhões, esclarecendo o autor que a diferença de 30 milhões é devida à falta de “estatísticas seguras nos países periféricos”. E prossegue: “Diz-se, no entanto, que 80% das baixas das tropas americanas na 1ª Guerra foram devidas à gripe e não às balas inimigas. Diz-se, também, que no Brasil houve, oficialmente, 35.240 óbitos, sendo 12.388 no Rio em 5.429 em São Paulo. Qual seria a estatística de Belo Horizonte, cidade no interior, então recém-criada?”
De Belo Horizonte o Arquivo Jair Noronha não tem conhecimento, mas pode informar a da cidade de Conselheiro Lafaiete, que na época se chamava Queluz.
Morreram de gripe espanhola:
- em outubro de 1918, o primeiro número indicando o dia, e o segundo o número de pessoas: 27 – 1; 28 – 2; 29 – 2; 30 – 1; 31 – 1 (7 pessoas).
- em novembro de 1918: 1º - 1 ; 2 – 2; 3 – 3; 4 – 2; 5 – 3; 7 – 5; 8 – 2; 9 - 2;
10 - 5; 11 – 9; 12 – 12; 13 – 5; 14 – 3; 15 – 4; 16 – 9; 17 – 4, entre elas uma menina de 12 anos, Maria, irmã do museólogo Antônio Luís Perdigão Batista; 18 – 11; 19 – 8; 20 – 8; 21 – 10; 22 – 3: 23 – 3; 24 – 3; 25 – 4; 26 – 2; 26 – 7; 30 – 3 (133 pessoas).
- em dezembro de 1918: 1º - 3; 2 – 2; 3 – 1; 4 – 1; 5 – 1; 6 – 4; 8 – 2; 9 – 2; 11- 1; 13 – 1; 14 – 2; 15 –1; 17 – 1; 21 – 2; 22 – 1; 23 – 2; 27 – 1 (30 pessoas).
Total: 170 pessoas morreram devido à gripe, (descontando 4 dias do final de dezembro nos 5 dias de outubro) num período de dois meses e um dia. E é preciso considerar que isso foi apenas na área da cidade de Queluz (e não no município), uma cidade ainda bem pequena naquele princípio de século.
Dizem que, em certos dias, devido ano número de mortos, os “fabriqueiros” da matriz não davam conta de fazer caixão para todos, e alguns tinham de ser enterrados em sacos de aniagem.
Para terminar capítulo tão triste de nossa história, quero narrar um fato que me contou minha mãe, Maria Augusta, que suaviza um pouco o texto com o EXEMPLO QUE DÁ DE FRATERNIDADE ACIMA DE QUALQUER MEDO OU COMODISMO. Quando a gripe espanhola atingiu nossa cidade, a situação ficou gravíssima: havia casas em que não havia uma pessoa de pé para fazer comida. Minha avó Avelina, que morava na rua da Chapada, fazia caldeirões de sopa para levar nas casas das vítimas de gripe, e minha mãe, a filha mais velha, menina de 9 anos, acompanhava-a nas visitas.
Após alimentar os doentes, minha avó recolhia as roupas sujas e as levava para lavar. Depois consertava aquelas que precisavam de reparos, passava-as e mandava minha mãe entregar nas casas. E, graça de Deus, não houve nenhuma vítima da “gripe espanhola” na casa de minha avó.
QUANDO MOÇOS DE CARIJÓS E ITAVERAVA FORAM ENFRENTAR O CORSÁRIO FRANCÊS DUGUAY-TROUIN
QUANDO MOÇOS DE CARIJÓS E ITAVERAVA FORAM ENFRENTAR
O CORSÁRIO FRANCÊS DUGUAY-TROUIN
Avelina Maria Noronha de Almeida
Dia 25 de agosto comemora-se o DIA DO SOLDADO, numa homenagem a DUQUE DE CAXIAS, patrono do soldado brasileiro. Vou passar para o leitor a notícia mais antiga que se tem de gente de CARIJÓS (como era chamada a nossa cidade no século XVIII até transformar-se em REAL VILLA DE QUELUZ) fazendo parte de uma tropa militar em defesa da soberania de nosso País.
Era o ano de 1711. No dia 21 de setembro havia chegado às Minas uma notícia terrível: 18 embarcações de guerra da armada francesa, sob o comando de DUGUAY-TROUIN, o almirante mais afamado do mundo naquela época, entrara no porto do Rio de Janeiro e sitiara a cidade, preparando-se para invadi-la. O governador daquela cidade mandara um emissário pedindo ajuda a Minas para evitar que se concretizasse a invasão.
Um moço que morava em Itaverava, DOMINGOS DA COSTA GUIMARÃES, sabendo dos fatos, foi para Villa Rica, capital da província, e começou a fazer tumulto em frente ao palácio. Juntou gente ajudando-o no barulho, acabando por convencer o governador a acudir ao apelo do governador do Rio de Janeiro e salvar a cidade das garras do corsário.
As Capitanias de São Paulo e das Minas haviam sido desmembradas da do Rio de Janeiro tendo sido criada, por carta régia, a 9 de novembro de 1709, a CAPITANIA DE SÃO PAULO E MINAS DO OURO. El-Rei nomeara, como governador da recém-criada capitania, o notabilíssimo CAPITÃO GENERAL ANTÔNIO DE ALBUQUERQUE COELHO DE CARVALHO, que tomou posse em 18 de junho de 1710, tendo como missão especial apaziguar os ânimos exaltados de brasileiros e reinóis na região das minas.
No curto prazo de seis dias, o Governador conseguiu reunir seis mil homens, “homens da melhor e mais luzida gente (...) assim forasteiros como Paulistas”, como depois a referida autoridade comunicou a el-Rei. ENTRE ELES, HAVIA MOÇOS DE CARIJÓS E ITAVERAVA.
No dia 28 de setembro, pelo Caminho Novo, a tropa das Minas Gerais, composta de homens do povo, escravos, milicianos e fazendeiros que deixaram suas roças, mineiros que deixaram suas lavras, iniciava a caminhada para socorrer a cidade sitiada. Os proprietários ricos forneciam armamentos e mantimentos. Havia um regimento de cavalaria, porém a maioria ia a pé.
Reuniram-se na encruzilhada de Congonhas e partiram, cheios de ardor cívico. Em cinco dias, o exército chegou à Fazenda Borda do Campo (Barbacena), onde não só foi acolhido como abastecido com gêneros para a viagem pelo Cel. Domingos Rodrigues da Fonseca. Além disso, mais duzentos homens se juntaram aos já existentes. Marchando quase sem parar, atravessando rios às vezes caudalosos, sofrendo todas as agruras da viagem, como as inclemências do tempo, as picadas de mosquitos e tantos incômodos, com mais doze dias os componentes da tropa chegaram à Serra do Mar. O Governador mandou acampar ali, na Chapada dos Pousos Frios, na região chamada Tinguá. Ficaram aguardando os que vinham na retaguarda.
A expectativa da chegada ao destino agitava a tropa. A esperança de ALBUQUERQUE era chegar antes que os franceses invadissem a cidade para livrá-la do cerco ameaçador. De onde estava, podia avistar parte da cidade e a baía de Guanabara. Viu que algumas naus estavam ancoradas no porto, mas não enxergava mais nada.
Foi quando passou um cavaleiro afobado e informou que o governador da cidade do Rio de Janeiro, Francisco de Castro, e os habitantes resistiam heroicamente. À noite, Albuquerque viu, lá do acampamento, um clarão avermelhado ao longe. É que uma parte da cidade estava dominada pelo fogo. Muitas propriedades tinham virado cinzas.
Começaram a passar carruagens cheias de pessoas que fugiam para Minas.
Alguém contou que os franceses haviam jogado, dos navios, foguetes inflamados nos tentos de palha das moradias de Santa Luzia e Castelo e a ventania, que soprava forte, estava espalhando o fogo por bairros inteiros. O fogo atingira até o palácio do governador. A criadagem estava abrindo buracos na terra e enterrando as baixelas de ouro e prata, para não serem pilhadas.
Albuquerque mandou que a tropa descesse a serra. Foi quando chegou um emissário do governador do Rio de Janeiro a quem tinham avisado da proximidade da ajuda mineira. Assim o nosso governador relatou depois, em carta, a el-Rei, quando tudo já estava terminado:
“(...) e em dezessete dias cheguei às avizinhanças desta cidade, e parecendo-me a acharia ainda defedendo-se, tive avizo do dito governador de q.° a havia perdido, pedindo-me a viesse restaurar. Prossegui a minha marcha, despedindo ordens às Minas pa. vir mais gente, mantimentos e gados, pois supunha o paiz justamente ocupado pelo inimigo, e ao descer a serra me chegou outro avizo do dito Governador, anunciando-me se tinha determinado a capitular com o inimigo, e logo sem demora me fez terceiro avizo com a certeza de haver ajustado a compra da cidades e fortalezas pr. 610.000 cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 vacas e em reféns do mestre de Campo João de Paiva, dois capitães de infantaria, um delles seu irmão; e como me parecesse desacerto grande o tal ajuste, pois se poderia esperar este meu socorro, ainda tendo-se-me pedido, quanto mais sabendo-se q.° já vinha em marcha a contenuei até onde suppunha estarem as munições, q.° por muitas vezes tinha pedido, e havendo polvora bastante, achei só quatro cunhetes de bala, sem esperança de alcançar mais alguma, em cujos termos, e com a certeza de q.° também se havião perdido as fortalezas da barra, e estavão pelo inimigo bem guarnecidas, quando com facilidade se poderião ter conservado, principalmente a de Santa Cruz, me resolvi a fazer alto com as minhas tropas distante desta cidade quatro legoas.”
Esse local era o Engenho Velho. O Governador das Minas não se conformava de não ter chegado a tempo de evitar a invasão. Teria de restituir a cidadania ao Rio de Janeiro. Os soldados estavam inquietos. Uns não se conformavam em não avançar logo e destruir o inimigo, principalmente os que tinham parentes naquela cidade.
MAS ALBUQUERQUE ERA UM EXCELENTE ESTRATEGISTA. Sabia que não seria prudente avançar naquele momento. Sua tática seria outra. Pensou da seguinte maneira: se o negócio do ajuste estava tão adiantado, com reféns passados, moradores comunicando-se com muita familiaridade com o inimigo e comerciando com ele, havendo lá falta de munição e todos já estando sossegados, poderia não ter sucesso, naquela hora, uma operação de ataque aos franceses. Melhor seria fazer entender ao inimigo que não deixaria que ampliassem a sua conquista, pois percebeu que o objetivo do invasor não era, na realidade, a posse da cidade do Rio de Janeiro, mas a entrada para o interior do País, onde pensavam encontrar ouro e outras riquezas. Assim, aquartelou-se em parte pouco distante, mandando tomar logo todos os postos e estradas por onde poderia o inimigo entrar ou que possibilitassem aos brasileiros comerciar com os franceses, proibindo esse comércio “por bandos e graves penas e confiscando-se o q.° lhes era achado”. Com essa estratégia, dentro em pouco começaria a faltar muita coisa dentro da cidade e a situação não ficaria agradável para ninguém que lá estivesse.
A manobra foi coroada de êxito. Assumindo, daquela maneira, o governo da cidade a partir do local onde estava aquartelado, o nosso capitão-general conseguiu controlar a situação, intimidando os invasores: “(...) com cuja novidade se começarão os franceses a se intimidar, dobrando as guardas e guarnição da fortaleza de Santa-Cruz, embacando logo o que q.° tinhão em terra, como também o seu general apressando a última satisfação do q.° se lhes devia, e recebendo-a partirão entregando a fortaleza de Santa Cruz, depois de sahir a ultima embarcação, mostrando irem bem satisfeitos do importante saque, q° tiverão e o ouro q° acharão, não sendo menos que se lhe deo o q.° grangearão na venda das fazendas e de muitos navios, q.° sem serem os donos se lhes comprarão, tudo a troco de ouro(...)”.
Foi uma alegria geral. Abraçavam-se todos, mesmo portugueses e paulistas, até pouco tempo antes lutando entre si na Guerra dos Emboabas.
Tudo terminado, Albuquerque mandou a el-Rei uma carta, onde fala do sucesso que experimentou ao socorrer o Rio de Janeiro, “atropelando mil dificuldades e excessivos trabalhos por serras e caminhos fragozos” exaltando os participantes “na promptidão e obediencia, com que os achei nessa ocazião, deixando suas lavras e roças, trazendo os mesmos escravos com mantimentos e armas, e me pareceo conveniente, q.° Vossa Magestade sendo servido lhes mandasse agradecer por carta às Câmaras das Villas, q.° também no que lhes tocou de dar mantimentos e carruagens, se houveram com toda a pontuallidade” e fala a seu próprio respeito: “o desvelo com q.º procurei livrar a esta cidade da ruína (...)”
E termina:
“A real pessoa de Vossa Magestade guarde Deus por muitos annos.
Rio de Janeiro, 26 de novembro de 1711, Antonio de Albuquerque de Coelho Carvalho.”
DOMINGOS DA COSTA GUIMARÃES, aquele moço de Itaverava que convenceu o governador a acudir ao apelo do governador do Rio de Janeiro, foi condecorado porque “Na invasão francesa de 1711 revelou “Amor ao Estado e zelo público.”
VAMOS LER PADRE VIEIRA!
VAMOS LER PADRE VIEIRA!
Avelina Maria Noronha de Almeida
“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Pe. Vieira
Um dia as palavras surgiram na vida do ser humano e abriram as portas para a Civilização. Palavras proferidas pela boca. Passadas adiante pelos escritos. Cristalizadas pela imprensa. Multiplicadas pelas técnicas. Muitas atravessam os tempos e não perdem seu valor. É o que acontece com aquelas que estão nas grandes obras, tornam-se clássicas e conservam seu poder e sua vitalidade por séculos. Foram palavras como essas que, um dia, modificaram minha vida. Não vou dizer que cem por cento, mas pelo menos noventa por cento.
Eu tinha o terrível hábito de protelar. Sempre acumulava coisas que devia fazer dizendo: “Amanhã sem falta!”. E ia de amanhã para amanhã. Como a gente se esgota vendo dia a dia aumentar o volume do que se devia fazer e que vai ficando para trás!...
Certo dia achei a solução para o meu problema. Dizem que Pe. Vieira, que nasceu em Lisboa a 6 de fevereiro de 1608 e veio para o Brasil aos 6 anos, era considerado um aluno de pouca inteligência. Um dia teve uma forte dor de cabeça que quase o matou e, de acordo com o menino, foi como um estalo na cabeça. Desde então, tornou-se brilhante. Pois é como se eu tivesse tido, em relação ao mau hábito de protelar, um “estalo de Vieira”, como ficou sendo conhecido o fato pitoresco acontecido no século XVII. Não tive dor de cabeça, mas, de repente, salvo poucas exceções, tornei-me cuidadosa em não protelar serviços, a não acumular obrigações que acabavam se tornando quase impossíveis de serem cumpridas.
O estalo em mim aconteceu quando li o Sermão da Sexta-feira da Quaresma, pregado pelo Pe. Vieira na Capela Real, em Lisboa, no ano de 1662. Entre outras coisas, o sábio sacerdote dizia:
“Conselheiros de ‘que havemos de fazer’, não são conselheiros. Os conselheiros hão-de ser homens de ‘quid facimus’: Que fazemos? [...] A razão porque se perdeu tanta parte daquela tão honrada monarquia da Ásia, ganhada com tão ilustre sangue, qual foi? Porque o inimigo ‘fazia’, e nós ‘havíamos de fazer’. Não vamos tão longe. Enquanto Portugal teve homens de ‘havemos de fazer’ (que sempre os teve) não tivemos liberdade, não tivemos reino, não tivemos coroa. Mas tanto que tivemos reino, não tivemos coroa. Mas tanto que tivemos homens de ‘quid facimus’, logo tivemos tudo.
O sermão também fala sobre o milagre dos cinco pães no deserto. Naquele dia, a multidão quis aclamar Cristo como rei, porém ele não consentiu. Prossegue Pe. Vieira:
“O texto diz que fugiu para o monte; mas não diz de que fugiu. E isso é que eu pergunto: De que fugiu Cristo nesta ocasião? Dizem comumente, que fugiu da coroa; mas eu digo, que, se fugiu da coroa, fugiu muito mais dos homens. Porque não há cousa de quem um rei mais haja de fugir, que de homens ‘de havemos de fazer’. Se eles foram de ‘quid facimus’, bem meio rio eu, que lhes fugira Cristo. E se lhes fugisse, haviam – No de prender; porque, se depois o prenderiam para lhe pôr uma coroa de espinhos, porque o não prenderiam para lhe porem uma coroa de ouro? Mas como eram homens de ‘que havemos de fazer’, nenhuma cousa fizeram: parou o seu conselho em nada”.
A peça oratória é enorme e ainda faz muitas ponderações importantes. Eu mesma não entendo e não sei explicar porque o sermão teve força tão grande para mudar tanto meu comportamento falho.
Voltando ao Pe. Vieira, um excelente escritor de nossa cidade, o Sr. Benedito Franco, que de viver aqui há tantos anos já se tornou lafaietense, tem um trecho muito interessante em um de seus textos que ele publica em antologias e põe a circular na Internet. Ele conta que conheceu algo sobre o Padre Antônio Vieira quando cursava o segundo ano do ginásio:
“Vieira cativou-me de cara - sempre que lia, aqueles pedaços de cultura deixavam-me maravilhado”.
Visitando uma Feira de Livros no Rio de Janeiro, deparou-se com a coleção dos Sermões do grande orador – quinze livros em cinco volumes.
Continua:
“Olhei, admirei e namorei. Tomei algumas informações com o vendedor e prometi-lhe voltar no dia seguinte para comprá-la - faltava-me o dinheiro no momento.
O Sr. Benedito voltou à noite e estava folheando um dos volumes dos Sermões. Deixemos que ele continue:
“Olhando para um lado, notei a aproximação de um grupo de jovens, volteando um respeitável senhor de terno escuro e gravata. O elegante senhor parou em minha frente, mirou a mim e ao livro em minhas mãos, com um pequeno sorriso e pedindo licença, tomou-o e o abrindo:
- Está gostando do livro?
- Pretendo comprar a coleção...
Dirigindo-se a mim e aos jovens:
- Quem lê Vieira, sabe português. Quem lê muito Vieira, sabe muito português. Quem lê tudo de Vieira, sabe tudo de português. Muito prazer!
Apertando-me a mão:
- Sou o Professor Pedro Calmon. Adquira-a. Vale a pena, pois é um tesouro não só de nossa língua, mas da literatura universal. Vieira, de erudição enciclopédica, o maior orador de todos os tempos.
E se foi... rodeado dos jovens. Pareciam embevecidos com aquele senhor."
Vamos ler Pe. Vieira!
IMPRENSA RISONHA
IMPRENSA RISONHA
Avelina Maria Noronha de Almeida avelinanoronha@yahoo.com.br
“Nossa terra nasceu sob o signo da alegria.”
Nossa terra nasceu sob o signo da alegria, pois não é que o primeiro nome da cidade foi Campo Alegre dos Carijós? Simão de Vasconcelos, autor do livro “Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil”, publicada em 1668, falando sobre os gentios carijós, conta que, de acordo com a crença deles, os que merecerem,“depois que morrem se ajuntam a ter seu paraíso em certos vales, que eles chamam campos alegres (quais outros Elísios) e que ali fazem grandes banquetes, cantos, e danças”.
Os Carijós desceram da Amazônia e e chegaram até o Sul do país procurando encontrar, ainda em vida, esse lugar maravilhoso. Imagino que, ao chegar em nossa terra, cheia de verdura nas árvores, peixes nos rios e ribeirões, ouro à flor da terra, pensaram: “chegamos ao Campo Alegre”. E imagino ainda que, nos primeiros tempos, antes da chegada do homem branco, devem ter vivido fazendo mesmo grandes banquetes, cantando e dançando.
Em seu livro “Minhas Recordações”, Francisco de Paula Ferreira de Rezende testemunha a alegria já nos tempos de Queluz, no idos de 1850: “Apesar da riqueza que lhe faltava, era Queluz uma povoação que nada tinha de desagradável ou de enfadonha; mas era pelo contrário, uma povoação alegre, onde as festas eram frequentes, variadas, bonitas e todas elas muito baratas; porque todos concorriam para elas com as suas pessoas ou com aquilo que podiam dar e muito pouco era o dinheiro que realmente se gastava”.
O testemunho da alegria de nosso povo, nos estertores do século XIX e nas primeiras décadas do século XX está na imprensa. Houve jornais mais noticiosos e com conteúdo quase todo sério. Entretanto, a maioria deles era de conteúdo jocoso, veiculando brincadeiras, satirizando pessoas e fatos que, se aborreciam a alguns, eram de agrado dos leitores, que davam boas risadas ao lê-los. Os jornais, como o povo, eram brincalhões.
Até os nomes dos periódicos já sugeriam conteúdo engraçado. Vejam só alguns: “O GURY: PERIODICO NOTICIOSO E HUMORÍSTICO”, 1901; “O LYRIO: ORGAM HUMORÍSTICO E NOTICIOSO”, 1910; “ZAZ-TRAZ: JORNAL POLÍTICO-HUMORÍSTICO”, 1917; “O ABROLHO – PASQUIM HYPOTHETICO E SUFFLAGANTE; 1922; “FOGUETE: ORGAM DO PARTIDO CONSERVADOR DO... BOM HUMOR”, 1928. Os poetas utilizavam pseudônimos, o que era mais cômodo principalmente quando o humor era mais cáustico ou as críticas impiedosas a políticos.
Um dos problemas locais no final do século atrasado era o da iluminação. Naquele tempo, a iluminação era feita acendendo-se lampiões nos postes da rua. O QUELUZ DE MINAS de 3 de janeiro de 1898 traz os seguintes versos, criticando comportamentos políticos da época (quando quem governava o município era o presidente da Câmara):
Poesia de nova espécie, estropiada.
Conhecem?
A chuva tudo molhou.
O ano novo chegou,
São Silvestre passou,
A Câmara velha ficou.
E quando tornar a chover
Teremos água a valer.
Nas noites de luar
Podemos à noite passear
Sem medo de tropeçar.
Para isto se arranjar
Um empréstimo se vai lançar,
E os beócios do lugar
São os que hão de pagar.
Porém é bom perguntar:
Alguém quererá emprestar?
Vão imprimir ações
Do valor de seis tostões
Pagas em prestações
Independente de citações,
Pois os impostos criados,
Na última sessão votados,
Logo que sejam cobrados
Não deixarão atrasados.
De água tanta quantidade
Que inundará a cidade;
Tão grandes focos de luz
Que deslumbrarão Queluz
(Improviso do Anastácio)
Algum tempo depois, no mesmo ano, nova referência ao assunto no Queluz de Minas de 25 de setembro:
CANALIZAÇÃO DA LUZ
O poder é o poder; e
o mais são histórias...”
Consta reservadamente
Que, por excentricidade
Decidiu-se o presidente
A iluminar a cidade.
(Quem transmitiu-me a notícia
É homem de muito senso,
Incapaz de uma malícia,
Sempre à verdade propenso...)
Ajuntou-me ele que a rua
Que vai ser iluminada
Em muito pouco atenua
O nosso mal, quase em nada...
Porque ficará no centro
De altos muros – oh caipora!
Ele, o rei, passa por dentro
E nós passamos por fora!!
C. T.
Numa série dos excelentes artigos “Panorama do Passado” que Luiz Antônio Perdigão publicava no também excelente jornal “Panorama” de Alberto Rodrigues Libânio, encontramos as informações seguintes:
“Os arquivos da Biblioteca Antônio Perdigão possuem cerca de duzentos títulos de jornais que fazem a história da imprensa lafaietense.
Entre eles existem os chamados “humorísticos”, que por longos anos, em seu estilo, deliciavam os seus leitores com piadas, sátiras, poesias etc. Eram geralmente editado por grupos de rapazes, ou também, às vezes, por uma só pessoa que, na maioria dos casos, se conservava no anonimato e vendidos, aos domingos, geralmente na porta da matriz, após a missa das dez horas.Os jovens esperavam ansiosos a saída do jornalzinho, que invariavelmente mexia com os namorados, negociantes, com a vida social da cidade e outros assuntos.”
Em outro artigo Perdigão também nos relata:
“Em 1902, surgiu um jornalzinho em manuscrito: “O Esperto”, cuja assinatura mensal custava 300 réis e o número avulso 60 réis. Esse jornal abriu o ciclo dos jornais humorísticos da cidade.
Em 1919, veio a público “A Pulga”, e um dos seus fundadores foi o sr. Humberto Clemente.”
Vejam só o estilo de alguns desses jornais citados pelo Perdigão, a começar pelos títulos e apresentações:
O MARIBONDO
Diretor: Anônimo.. Editado em 1918.
Expediente: Publica-se quando tiver papel.
O GILÓ
Apresentação: É fruta boa
Misturado com chuchu.
Tendo no prato feijão
E um pedaço de angu.
Editado em 1922.
O ABROLHO:
Editado em 1926. Publica-se quando estiver pronto.
O PIRATA DO ANDRÉ
“O André Rodrigues tem um ganso chamado Pirata que toca piano, joga búzio e come milho na garrafa. Um jeca, admirado, disse:
- Virge! Fim do mundo! Tá bão pra levar pro jubileu de Congonhas.”
Realmente o André, que tinha um comércio onde hoje é o Banco Itaú, na Praça Tiradentes, e morava em frente, onde hoje é o Banco Santander, todas as manhãs atravessava a praça para abrir a sua venda acompanhado do fiel ganso, que era como se fosse um cachorrinho. Um dia o ganso foi atropelado e o André ficou o dia inteiro fechado no quarto sem querer aparecer para ninguém, de tão abalado pelo acontecimento.
TIC-TAC
Diretor: Álvaro Diógenes.
Cola... borra... dores; di...versos.
Editado em 1930.
A TROMBETA
Diretor: Oliveira Sae Azar
Editado em 1937.
Mesmo periódicos de nomes mais sério traziam às vezes poesias humorísticas.
A partir da década de trinta do século XX, os jornais já passaram a dar um menor espaço para o humor e a sátira poética, mesmo assim ainda surgiam, misturados às notícias, versos risonhos, como os do Agnaldo Guimarães, que foi comerciário e focalizou com muita graça os contratempos das transações comerciais:
O CALOTEIRO
Entrou um dia, na loja,
Um camarada de fora
E disse: eu quero umas compras,
Mas não posso pagar agora.
Em resposta o lojista
Disse logo ao forasteiro:
Amigo, você tem crédito
Só pra comprar a dinheiro.
Era assim que, na primeira metade do século XX, a imprensa local sorria para seus leitores e criticava os problemas da cidade.
Castigat ridendo mores. Dístico proposto pelo poeta neolatino Jean de Santeuil,
(1630-1697) para dístico de um busto de Arlequim.
BERNARDO GUIMARÃES
ELE É UM POUCO NOSSO TAMBÉM
Avelina Maria Noronha de Almeida
“Se o poeta nascera em Ouro Preto, considerava, naturalmente,‘Campos natais’ todo o vasto sertão de Minas por onde jordaneara.”
Escritor Brito Broca, falando sobre Bernardo Guimarães.
Quando estava organizando a antologia “Poetas Queluzianos e Lafaietenses”, buscando informações na Biblioteca Pública de Conselheiro Lafaiete, num excelente álbum confeccionado por Nilce Pereira sobre fatos de nossa cidade, encontrei, entre as efemérides lafaietenses, o nascimento, em 30 de abril de 1876, de Afonso Silva Guimarães, filho de Bernardo Joaquim da Silva Guimarães e de Tereza Guimarães.
Fiquei curiosa. Como se explicaria aquela informação? As prestimosas funcionárias da biblioteca na mesma hora procuraram os livros de Bernardo Guimarães e neles encontraram dados que diziam ter sido o escritor ouropretano nomeado professor de francês e latim em Queluz, em 1873. Lembrei-me, então, de que minha mãe contava ser inspirada em pessoa da antiga Queluz a personagem principal do célebre romance “A Escrava Isaura”.
Para mim foi uma novidade o fato descoberto. Verifiquei que era também desconhecido pelas pessoas a quem eu perguntava. Os antigos saberiam do fato, porém, com o tempo, ficara esquecido – foi o que pensei. Houve reação negativa de algumas pessoas quando comentei a história. Mas não desanimei e consegui provas. Tenho o xerox do contrato de edição (está respeitada a ortografia da época) , no qual se pode ler :
“Entre os abaixo-assinados, o Dr. Bernardo
Joaquim da Silva Guimarães, morador
em Queluz de Minas, como auctor,e B.L.
Garnier, estabelecido no Rio de Janeiro,
como editor, foi convencionado e con-
tractado ” o seguinte:
1º
O Sr. Dr. Bernardo Joaquim da Silva
Guimarães vende a B. L. Garnier a
propriedade, com todos os direitos de
auctor, de sua obra intitulada ‘A
Captiva Isaura’, pela quantia de seiscen-
tos mil réis, que serão pagos ao primeiro
pedido do auctor.
2º
Em fé de que passárão dois contractos
de igual theor, por cujo cumprimen-
to obrigarão-se, por si e seus bens,
bem como por seus herdeiros e succes-
sores, cujos conctratos entre si trocá-
rão depois de assignados.
Rio de Janeiro, 16 de julho de 1874.
(Seguem-se as assinaturas dos dois contratantes)
O livro foi publicado em 1875.
Bernardo morou no início da rua Barão de Suassuí, antes chamada de Rua Barrancos, na antiga residência de D. Maria Amália, onde mais tarde funcionou o Colégio Monsenhor Horta.A casa do escritor é a primeira à direita,mais no alto.
Em dezembro de 1876, ele ainda residia em Queluz, como se pode ver em carta enviada a seu editor no Rio de Janeiro e, assim, pela cronologia de sua obra, outras obras poderiam ter sido escritas na mesma cidade.
Bernardo Guimarães praticamente só é conhecido como romancista, mas também se destacou em outros campos literários. Sua obra poética é de grande beleza e muito vasta. Em minha opinião, o mais belo de seus poemas é “Poesia”, que tem, após o último verso, o local e a data: Queluz, 1873. È de grande extensão ocupando várias páginas, assim terminando:
Canta, ó poeta, enquanto a sacra chama
Te aquece o coração, te alenta os voos.
É de manhã que os passarinhos cantam
Seus mais frescos, harmônicos gorjeios.
À tarde geme o sabiá saudoso
No tope excelso de virente cedro;
À noite só ulula em sons carpidos
Entre ruínas agoreiro mocho.
Canta, antes que o inverno congelado
Na urna do teu peito extinga a chama
Que faz subir aos céus o incenso d’alma
E da vida nos álgidos caminhos
Venha murchar da fantasia as flores.
Canta, bem-vindo seja este teu canto
Que em minha alma acordando ecos de outrora
Abre meio seio aos cânticos e às flores.
Queluz, 1873
terça-feira, 16 de julho de 2013
AGRADECIMENTO À CÂMARA MUNICIPAL DE CONSELHEIRO LAFAIETE
AGRADECIMENTO À CÂMARA MUNICIPAL PELA MOÇÃO DE APLAUSO
Avelina Maria
Noronha de Almeida
Certa vez li uma frase que começava:
“Conhece-se uma cidade pelo modo como nasce...” e continuava com outras
palavras. Modifiquei o final e ficou assim: Conhece-se uma cidade pelo modo
como nasce, cresce e preserva seus valores.
Uma cidade é como o ser humano: tem
a matéria, mas também possui algo imponderável que a vivifica: uma essência
misteriosa, uma força imaterial que emana de seus moradores. Se a cidade se
preocupa apenas com a primeira parte, a material, fica-lhe faltando algo necessário,
e muito! Quando o que importa é apenas o chão que se pisa, a água que corre, a
luz que ilumina, o alimento que sustenta, enfim, apenas tudo aquilo que garante
a sobrevivência (essencial, é claro!), se, repito, forem apenas cuidados esses
setores, o seu progresso pode se tornar frágil como aquela casa construída
sobre a areia de que nos fala a Bíblia. Sem uma base cultural de reflexão, sem
respeito a princípios autênticos, sem consulta às experiências do passado (pois
o que existe hoje depende do que foi feito ontem), o edifício material do
progresso arrisca-se a deformações estruturais que nem sempre trazem o
verdadeiro bem à Comunidade. É preciso que se cuide também do que vem desse
algo imponderável que significa a sabedoria, o discernimento, os ideais, os
sonhos, os tesouros amealhados no passado e que fazem aquela diferença no
progresso de um povo. Não se pode cuidar somente do corpo, em detrimento das
forças culturais que o animam, entre elas a História e a Literatura, guardiãs
dos pensamentos, das ações empreendidas e dos valores remanescentes de outras épocas.
Como diz Cervantes na fala do imortal personagem D. Quixote: “A história é
êmula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado e exemplo para o presente,
advertência para o porvir”.
Palavras verdadeiras: a História
realmente é êmula, isto é, compete com o Tempo e o supera, porque compartilham
idênticos fatos, mas o Tempo passa e a História permanece. Assim a História o
ultrapassa.
Voltando ao pensamento do início,
como nasceu nossa cidade?
Um dia vieram os índios. Trouxeram o
desejo de liberdade, de viverem longe da opressão e da falta de dignidade que
os faziam sofrer em outros lugares. Aqui encontraram a natureza pródiga e bela,
o “Campo Alegre” com o qual sonhavam.
O homem branco veio em busca de uma
vida melhor, que o ouro poderia dar.
O africano chegou subjugado, mas trouxe
a força de seu braço que foi importante fator de desenvolvimento desta terra.
As três raças, cada uma com suas tradições e vivências próprias, uniram-se e,
dessa miscigenação, nasceu uma raça nova, forte em suas características, é
verdade que herdando as fragilidades de cada uma delas, mas, principalmente,
recebendo suas qualidades e virtudes, que se somaram e caminharam juntas para o
porvir.
Como cresceu nossa cidade? Vencendo
os desafios de uma natureza exuberante e bela, mas, de certa forma, inóspita;
sobrepondo seus sentimentos mais nobres à ambição e à concupiscência de muitos;
lutando pelo império da liberdade, abraçando ideais como os dos inconfidentes e
os dos liberais de 1842; doando ao Brasil homens que mostraram o valor do
queluziano e do lafaietense, em tempos de paz e em tempos de guerra,
atravessando, com determinação, dias, décadas, anos e séculos, tornando cada
vez mais grandioso o nome de nossa terra.
E como Conselheiro Lafaiete preserva
seus valores?
As
duas primeiras indagações foram expressas com o verbo no passado. Esta última
utiliza o presente.
Uma
cidade, para preservar seus valores, precisa conhecê-los, mirando os exemplos
que nos deixaram os homens de bem que construíram seu passado e que agregaram seus
esforços para o bem comum. As pessoas passam, mas a comunidade permanece e
permanecem as ações que a beneficiaram.
Desde
os primeiros tempos, nossa terra sempre foi recebendo novos moradores e isso
acontece até hoje. Se há famílias com raízes antigas, quantas pessoas,
atualmente, vieram aqui residir... É preciso então que, constantemente, uma
força una todos os habitantes, antigos ou recentes, mantendo o sentimento de
amor e autoestima em relação à cidade. Não se diz que só se ama o que se
conhece? O conhecimento da nossa História é a argamassa que possibilita a união
de um povo. Foi um pouco dessa História e do valor de pessoas que deram passos
importantes e de pessoas que estão hoje também caminhando com vigor, que
busquei colocar no livro “Garimpando no Arquivo Jair Noronha”. Já disseram que
“conspira contra sua grandeza o povo que não cultua os seus feitos heróicos”. E
acrescento: e não reconhece seus valores e seus talentos. Por isso mesmo, no
momento efervescente pelo qual estamos passando, de tantos questionamentos,
também cada lafaietense devia se perguntar: Conheço a história da minha terra?
Ouço os avisos da História para o presente e suas advertências para o futuro? Cultuo
os que trabalharam para o bem dela?
O
que escrevi no livro “Garimpando no Arquivo Jair Noronha” é uma pequena
contribuição ao conhecimento da história de nossa terra, que apresentava
lacunas e erros, tendo me valido muito, na realização desse trabalho, dos
escritos valiosos de historiadores ilustres que me antecederam nos relatos dos
fatos históricos. As pessoas que focalizo no livro são valorosos batalhadores
pela grandeza de nossa cidade, ou talentosos lafaietenses que se destacaram além dos limites municipais, estaduais
e mesmo nacionais e estavam praticamente esquecidos, bem como valores atuais, enfim,
coisas importantes que já aconteceram em
Carijós, Queluz e continuam acontecendo em nossa amada Conselheiro Lafaiete.
Também estão no livro muitos fatos que mostram a participação de nosso povo,
desde o século XVIII, em defesa do verdadeiro progresso, da liberdade e da
dignidade humana.
Deveria
ter iniciado minhas palavras agradecendo aos Ilustres Vereadores desta egrégia
Câmara a homenagem que recebi. Propositalmente inverti a ordem do processo
para, caminhando com as palavras, demonstrar o significado da Moção de Aplauso
que recebi. Estendo o mérito desta homenagem aos vultos do passado, que tomaram
vida nas páginas do livro, e aos vultos do presente, que o valorizaram, com a
presença de trechos de suas próprias obras e com suas pinturas; ao jornalista
Guilherme Vinícios de Souza Maia, que me lançou nesta aventura literária com
seu convite para escrever as crônicas em seu jornal e me estimulou a realizá-la;
aos editores, colaboradores e amigos Osmir Camilo Gomes e Wagner José Vieira,
pois sem o trabalho e esforço deles não seria possível a existência da obra; ao
presidente da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette, Douglas
de Carvalho Henriques, que me ajudou efetivamente na comprovação do mais
importante resgate histórico nela relatado; e a todos os que contribuíram com
informações, contribuições nas pesquisas e fotos.
Nossa
cidade, de acordo com os princípios democráticos, está refletida nesta Câmara
Municipal. Valorizando a Cultura, que, como já expressei antes, deve nortear as
realizações materiais dando-lhes fundamentação segura, demonstram os senhores Vereadores
que, desde os primeiros tempos de seu trabalho, estão construindo o edifício de
seu mandato na rocha firme, para trazer autêntico bem-estar ao povo e elevar,
cada vez mais alto, o nome de Conselheiro Lafaiete.
Em
meu nome, e em nome das pessoas que amam verdadeiramente a nossa terra, e que,
com certeza, compreenderam o alcance do gesto desta Egrégia Câmara, os meus
comovidos agradecimentos ao Vereador Washington Fernando Bandeira, que
apresentou a Moção de Aplauso, e aos demais Vereadores, que a aprovaram. A todos esses nobres Vereadores de nossa
cidade, dirijo minha homenagem de admiração pela a preocupação cívica de preservar
um passado muito grandioso e, com isso, contribuir para o aumento da autoestima de nosso povo, dando
exemplo de autêntico espírito de Cidadania.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
MEU CURRÍCULO TEATRAL
Quase nasci assistindo a uma peça teatral. Quando minha mãe, Maria, e meu pai, Jair, estavam saindo de casa, a parteira, D. Antônia, que era vizinha, alertou: “Cuidado, Maria, que essa criança vai nascer no circo!”
Naquele
tempo, os circos terminavam a função com uma peça teatral bem melodramática.
Talvez a voz alta dos atores tenha me atingido onde eu estava escondida e
despertado minha curiosidade para saber o que eles estariam fazendo... Isso
deve ter me apressado a resolver a situação. Mas não nasci no circo, como
predissera a boa senhora, e sim em minha casa, poucas horas depois, (não acredito em horóscopos, mas vá lá...) quando
a esplêndida constelação do Escorpião era atravessada pelo Zodíaco e também
estava ascendente, foi que abri os olhos para
este espetacular teatro que é a vida. Duplamente “escorpião”, logo eu que tenho
pavor desse animalzinho...
A
minha infância foi impregnada de arte teatral, pois meus pais não perdiam as
peças que eram encenadas na cidade e eu, desde bem pequenininha, os
acompanhava. Naquela época aqui se apresentavam as grandes companhias do Rio de
Janeiro, como a do famoso Procópio Ferreira, sempre acompanhado da linda filha
Bibi. Também o teatro local era muito forte, com atores de excelente qualidade.
Eu usufruía isso com prazer.
Aos
seis anos, quando cursava o Jardim da Infância no Colégio “Nossa Senhora de
Nazaré”, a minha professora, Didi Ramos, era um verdadeiro prodígio e sabia
fazer teatrinhos como ninguém. Suas festas eram preciosas! Na peça “A Gata
Borralheira”, eu fui a madrasta e houve comentários de ter sido muito realista,
castigando de verdade – coitadinha! - a minha linda enteada, a saudosa lourinha
Liège Giacomini.
Cismei
de escrever uma peça teatral quando tinha nove anos. Seu nome: “A princesa
Raiozinho de Luar”. Ensaiei-a com a criançada que brincava comigo (vizinhos e
parentes), sendo princesinha a linda e suave Leda; eu era a bruxa malvada. No
dia da apresentação, os bondosos vizinhos da Rua Miguel Garcia foram convidados
e pacientemente nos prestigiaram.
Nos tempos do Curso Ginasial, foi encenada no
Colégio a peça “D. Bosco”. Eu protagonizei o santo. Era impressionante o trecho
em que o demônio, depois de tentar o sacerdote, pulava em uma abertura que
havia no assoalho e de onde saía um verdadeiro fogaréu (o recurso cenográfico
era muito bem feito e me fascinava). A peça foi um sucesso! Tanto que, no ano
seguinte, resolveram repeti-la. Mas surgiu um problema: a aluna que
representava o demônio havia formado e ninguém queria aceitar o papel do
“tinhoso”. Foi quando me ofereci para representá-lo, resolvendo o problema
porque “santo” todo mundo queria ser... Assim, na mesma peça fui santo e depois
demônio.
Na
década de 50, então residindo na paróquia de São Sebastião, quando ali encenaram
a vida de Santa Terezinha mais uma vez assumi a santidade. Era emocionante a
cena de minha morte, quero dizer, da morte de minha personagem! A turma do
teatro era fabulosa, muito envolvida com a arte cênica, constituindo um
capítulo honroso da História Teatral Lafaietense. Guardo com carinho dois
retratos: num eu estava vestida de noiva, como era necessário para receber o
hábito e, no outro, já com o hábito de
carmelita.
Estreei
minha vida profissional no magistério com um teatrinho, pois, no meu primeiro
mês de aula, para ensinar “proteínas” escrevi uma pecinha sobre o assunto e
encenei com os alunos. Era a história do Chapeuzinho Vermelho, só que a letra
que a menininha (era a linda Vitória Rezende, hoje também Nogueira) cantava, em
vez da canção tradicional, uma adaptação, na qual Chapeuzinho ia “levar
proteínas para a vovozinha” e prosseguia citando-as. Havia também um menino
“fraquinho” que não aguentava a carregar um pequeno feixe de lenha e recebeu,
do Chapeuzinho Vermelho, sábias instruções sobre alimentos. Nem é preciso dizer
que, na prova sobre o assunto, a turma brilhou! Está aí a escritora Vitória que
não me deixa mentir...
Mas
o ponto alto de minha carreira de “teatróloga” foi a revista musical infantil “Minha Cidade”, com
alunos do Grupo Escolar “Inconfidência”, encenada, por gentileza das Irmãs, no
palco do Colégio “Nazaré”. A platéia estava lotada. Muitas autoridades. Estavam
presentes os ex-combatentes de Lafaiete, pois seriam homenageados. Foram muitos
quadros, num período de mais de uma hora, sem interrupções. O coral que
acompanhava o enredo era magnífico, de alto nível, ensaiado pela competente
professora de canto Regina Leão. As principais profissões exercidas na cidade
foram focalizadas. O quadro das lavadeiras, de grande efeito visual, as quais entravam com trouxinhas de roupa na
cabeça e depois iam para a fonte lavá-las, tinha a música “Chuá, chuá” como
fundo; havia os engraxates: “Ele era engraxate, era engraxate, era
engraxate...”. E que beleza o boiadeiro se recolhendo ao fim da tarde: “Vai,
boiadeiro, que a noite já vem, pega o teu gado e vai pra junto do teu bem...”.
E o jornaleiro, distribuindo jornais e cantando “Olha a ‘Noite’, olha a
‘Noite’...” música muito conhecida na época.
Finalmente,
realizei pequenas incursões em arremedos de teatro radiofônico, nas
apresentações da Semana da Pátria na Rádio Carijós, com os alunos do Colégio
“Nazaré”. Lembro-me com saudades do “Repórter da História”, transmitindo para
os ouvintes, com grande realismo, o que estava presenciando às margens do
Ipiranga. Era até emocionante quando o D. Pedro gritava o “Independência ou
Morte!”
O
tempo passou, não posso dizer, pela simplicidade de minhas atuações, que fui
artista de teatro, mas, de qualquer maneira, hoje, ainda faço o meu espetáculo,
agora como artista circense, como
expressei em versos:
Entrei num grupo de saltibancos.
Sou equilibrista
do sonho e do pão...
tendo, por agradável companhia, a
luzida “troupe” humana que dá seu espetáculo cotidianamente neste imenso
cenário que é o mundo de Deus.
Este
texto foi escrito atendendo ao pedido de currículo, quando meu nome foi
escolhido para o PRÊMIO DE TEATRO do IV FACE.
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